sábado, 26 de outubro de 2013
UMA GRANDE PAIXÃO
Somente uma grande paixão pode resgatar-nos da condição
inalienavel de sofrimento e dor.
Uma grande paixão !
A paixão é essencial para dar sentido à dor, e esse
sentido transformar-se em balsamo para a propria dor.
Desditosa a sina de quem não possui uma grande paixão,
algo porque encantar-se, envolver-se, como condição primordial para abstrair-se dos pesares, carencias, angustias, desencontros.
Quem vive uma grande paixão necessita de tão pouco para
transformar a realidade; além de poupar-nos da angustia do que
nos aguarda o dia de amanhã. É a capacidade de saborear cada momento,
apreciar a vida embora tantas coisas intragaveis.
Olhar a vida apenas por um ato de pura razão, o viver
humano seria de todo insustentavel.
A magia faz-se presente atraves de uma grande paixão - verdadeira distração e alheamento
da pungente condição essencial de existir.
Talvez o entusiasmo esteja na satisfação de caçar borboletas,
apenas para apreciar seus matizes de cor, para depois vê-las
novamente felizes, faceiras, saindo em liberdade.
Surpreender-se ante aquilo que encanta. Sentir um pulsar
diferente, algo que acelere a batida dentro do peito, e um brilho
diferente nos olhos. É isso que a paixão é.
Lembra ainda da ultima vez que surpreendeu-se, que se encantou, tomado pela comoção qual criança ante o inusitado ?
São as coisas que parecem futeis as que trazem contentamento,
as que realmente aquecem o espirito. A vida é feita de tantos dissabores, desatinos, somente atraves de uma louca paixão torna-se possivel que os momentos felizes, entremeados aqui e ali, não
passem desapercebidos.
Por sermos afetados pelo rigor da vida, lançamo-nos em jornadas
insanas em busca de um lugar seguro. Não há certeza quanto sua geografia, seguimos, então, aos quatro ventos, imaginando que em algum ponto haveremos de encontrar as garantias de proteção.
Que tua paixão, contudo, não seja a historia de um eterno
amor efemero. Não compensará o investimento, seja em esforço, como tambem em tempo. Sua efemeridade trará não mais que desalento, daquele que tenta, a duras penas, desfazer-se.
A solução não será aquilo que trará apenas mais dor.
Caçar borboletas, cultivar um jardim, enamorar-se pelo cãozinho, refinar-se nas artes, ou, quem sabe, compor poemas - serão todos
procedimentos mais prudentes, alem de mais saudaveis.
A paixão que não perdure mais que os desencantos do amor
romantico, não será, certamente, uma paixão verdadeira. Será um simples capricho, devaneio acriançado, atalho certeiro para
apenas mais desatinos.
O romantismo reveste-se à principio de brilho e fascinio, um encantamento idealizado como eterno. Seu brilho, no entanto, não
resiste mais que a estação festiva dos radiantes pirilampos.
Há encantos que vão alem dos fugazes deslumbramentos
do amor apaixonado.
Tocar-se pelas flores, borboletas, bichinhos de estimação, e tantas
incentivos mais, trará, sem cismas, mais disposição e sossego,
sem o delirio das emoções piegas, o coração sem sobressaltos, o humor ponderado, mais disposição, alem de regular o intestino, o colesterol, a pressão sanguinea...
Uhu ! parecendo até grão de bico !
É a insatisfação pessoal que nos aproxima mutuamente, esperando que o outro proporcione o que não conseguimos por nós mesmos. Caso não nos sentissemos carentes e minguados internamente,
que seria, em tal caso, do amor romantico ?
Buscamos preencher nosso vazio atraves do outro, e ele, por sua vez, lança-se na mesma desventura. É por isso que as ilusões romanticas são intensas, mas será com a mesma intensidade que
somos lançados de volta para aquilo que é da nossa competencia
para vivermos felizes.
Que há para ser encontrado naquilo que é vazio ? Preencher
o vazio com apenas mais vazio, não é dessa forma que nasce a frustração, o desanimo, quando, por fim, damo-nos conta da contradição do fato ?
As juras de amor eterno, que sobrou delas ? Dissiparam-se tão
rapido qual poeira levada pelo vento numa tarde fria de outono.
À maneira do vento deixar caos na sua passagem, tem as
estripulias do amor a mesma impetuosidade.
É por isso que cai bem aos espiritos juvenis, porque
tambem é passageiro.
Tanto a juventude quanto o arrebatamento romanesco, graças sua transitoriedade, não são, em definitivo, paixões que despertem credibilidade. Não são mais que uma breve recreação antes de
iniciar-se o verdadeiro trabalho de classe.
Não obstante, sem uma grande paixão, mesmo que seja efemera
ou barulhenta,
como haveriamos de resguarda-nos, que seja um momentinho
apenas, das vicissitudes da vida ?
Reconhecê-las, no entanto, requer tempo e sabedoria.
domingo, 20 de outubro de 2013
O TRABALHO COMO MECANISMO DE TRANSFORMAÇÃO PESSOAL
Voce questionou-se alguma vez sobre a verdadeira função do trabalho que realizamos a vida toda ?
O trabalho é necessario. Todos trabalhamos.
Executamos nosso oficio pela recompensa financeira que
proporciona. A declaração afigura-se como obvia, pois de que
outra forma dariamos conta da materialidade da vida ?
Mas será tão somente essa a serventia do trabalho ? Para a
maioria a sua utilidade não vai alem desse ponto.
"Ganharás a vida com o suor do teu rosto". Isso foi-nos
vaticinado por alguma divindade austera, e, ao longo das
eras, tem sido totalmente validado.
Trabalhamos para ganhar o sustento, ou ter alguma forma de
prazer, ou então usufruir de algum conforto.
Os fatos parece confirmarem a tese.
Esse ganho, para a imensa maioria, extrai suor, não
apenas do rosto, mas até da alma do esforçado vivente.
Rala e malha a vida toda sem, no entanto, nunca sair da condição miserenta de uma existencia sombria, com contratempos e dificuldades interminaveis.
Eis que surge então a questão : porque para alguns a voz
agourenta da divindade irada não se confirma ?
Há os que tem sucesso sem, no entanto, transformarem-se em
burros de carga, sem esse esforço de suor, ou vendo a vida como
uma luta sem tregua.
Qual o segredo ?
Será que o trabalho não guarda algum enigma, decodificado
apenas por alguns afortunados ?
Pode o trabalho dar-nos mais que simplesmente os recursos
para nos mantermos no jogo ?
Que há no trabalho para ser extraido alem do punhado de
moedas no fim de cada periodo ?
Uma pista nos foi dada, numa outra referencia, por uma deidade
menos intransigente : "Buscai as coisas do alto, que o resto
virá de acrescimo".
Todavia, é exatamente esse "resto" que buscamos com tanto suor, e que poderia ser alcançado de outra
forma caso nos valessemos das "coisas do alto".
Nos ocupamos para obter. Trabalhamos para acumular. Partimos
do pressuposto que será pelas conquistas (com suor) que
alcançaremos o que nos falta : alegria, satisfação, bem estar,
isto é, um mundo interno em paz.
Por esse paradigma, buscamos a realização interna atraves
das coisas do mundo, catando aquilo que nos "será dado de
acrescimo" em detrimento das "coisas do alto".
Buscamos TER para SERMOS FELIZES. A felicidade seria,
portanto, uma consequencia de mais zeros na conta bancaria.
E seria sempre alcançada DEPOIS, num outro tempo, depois de...
E, quando os objetivos, aos quais nos propomos, finalmente, tiverem sido conquistados, terá a pessoa transformado-se em algo melhor, ou apenas com mais posses e tambem com mais medo ?
Olhando para a pessoa de sucesso, que realizou-se profissionalmente, mas ao mesmo tempo transformou-se a nivel
pessoal, tendo encontrado a paz, a serenidade, o equilibrio, qual
o segredo para estar bem no mundo e igualmente consigo ?
Há o caminho em que a pessoa faz, conquistando coisas, para
então ser feliz. Felicidade futura.
Mas há um outro roteiro. Enquanto faz, põe nas suas ações,
AGORA, aquilo que espera alcançar DEPOIS. Isto é, faz com
alegria, entusiasmo, faz com interesse, curtindo esse momento.
Está envolvido, comprometido com sua atitude, sentindo-se bem
por estar aí, fazendo com cuidado, esmero, honrando cada
ação. Está mobilizado INTERNAMENTE.
Enquanto executa sua função, não põe apenas sua tecnica,
para o qual está sendo requisitado, mas coloca algo de si,
da sua pessoa, a energia envolvente da boa vontade,
da mobilização interna.
E o que faz com gosto, com aplicação, sairá bem feito. E o fazer
bem feito, com alegria, é o caminho mais curto para a fartura.
O que proporciona alegria haverá de trazer sucesso e tudo mais.
A pessoa sintoniza com ela mesma. Enquanto atua no seu
afazer, essa atuação externa conecta internamente com seu ser.
Dessa forma, o trabalho transforma-se num instrumento para
envolver-se com ela mesma, curtir-se, experimentar-se
num outro nivel que não seja tão somente o nivel tecnico.
O oficio servindo como ponte, conexão para alcançar o mundo interno. Externo e interno não mais dissociados.
A alegria que esperava ter depois, no fim de semana, no
feriado, começa experimentar no trabalho.
Percebe então que fazer com alegria (agora) é diferente que
fazer para ser alegre (depois).
Quando a atuação vira prazer, curtição, descobre que o
trabalho tem muito mais para dar que a simples recompensa do
contra-cheque. A partir dessa constatação, a vida entra num
outro giro, e nada mais será como sempre foi.
As coisas se encaixam, tudo se facilita, as promoções acontecem.
Tudo vem sem esforço, sem complicações, sem canga na nuca.
Verá então que o dinheiro se torna até irrelevante, um efeito
secundario, algo como um efeito colateral. Ao fazer com
entusiasmo o ganho externo perde conotação, importancia, e
deixa de ser prioridade.
Está a caminho de descobrir as "coisas do alto", confirmando
com sua experiencia de vida, que o "resto" realmente virá de
acrescimo. Sem suor. Sem canseira. Sem chateação.
Não será feliz pelo que o trabalho possa trazer, mas pela transformação interna que aquilo produziu.
Poderá até alcançar sucesso, almejando apenas o ganho,
mas felicidade, jamais.
Quem se encontra no trabalho, acaba sempre se encontrando.
Ter muito sem essa conquista interna, não alcançou grande coisa,
pois perdeu o mais importante.
É a verdadeira definição de pobreza.
Apesar de ter conquistado o mundo, vivencia o nada dentro de si.
Quem acessa sua essencia pelo que faz, terá bem mais que
suas necessidades possam exigir.
Nada faltará a um coração entusiasmado.
PS A palavra ENTUSIASMO é definida pelos Gregos como
"IN THEOS", cujo significado é "em Deus" ou "com Deus".
O entusiasmo é o caminho mais curto para estar
com Deus. Ele ao teu lado, que mais é preciso ?
sábado, 12 de outubro de 2013
A GRANDE ILUSÃO
Há um tempo maravilhoso,
tempo em que se olha para frente com entusiasmo,
com veneração, para sonhos, projetos, tanta coisa linda
atraves das quais realizar-se e ser feliz.
Disposição não falta. Transformamo-nos em guerreiros,
com o brilho dos herois no rosto. Parecemos invenciveis,
não medindo esforço, energia, tampouco boa vontade.
Um dia os propositos viraram realidade... ou não.
Somente então compreendemos a utopia das nossas
buscas insanas. Torna-se claro então que sonhos realizados
ou não, fazem pouca diferença.
Os primeiros decepcionam por não terem proporcionado a
paz e tudo mais que prometiam, enquanto os outros
desapontam, da mesma maneira, pelo simples fato de não
terem sido realizados. Igual ao bebê que não veio à luz.
Acomete-nos a tristeza, a culpa e o desconforto por tudo
aquilo que ficou para traz, por não ter dado conta,
ou, então, pelas conquistas realizadas, mas nem por isso
o vazio existencial ter sido preenchido.
A verdade é sempre sombria : aquele que não nasceu,
não traria nada a mais que aquele que carregamos nos braços.
Lamentamos mais as causas perdidas, com imensa
dificuldade para honrar a realidade presente.
Choramos, frequentemente, com mais pesar os mortos,
que o amor nutrido pelos que ainda continuam entre a gente.
Amamos o impossivel
pela impossibilidade de amarmos o possivel de ser amado.
Tenham sido os projetos realizados ou não, no fim nada fará
diferença. Tudo termina da mesma forma. A poeira do tempo irá
cobrir tudo, apagando qualquer rastro; e um pequeno anuncio no canto do jornal lembrando a
todos o fim de mais uma historia.
A vida é um empreendimento cujos dividendos estão muito
aquem de cobrir o alto investimento realizado.
Não reconhecemos com facilidade a verdadeira condição da
vida, porque o tedio essencial tenta ser anulado pela
ocupação ou pelos prazeres do corpo.
Que restaria da vida quando despida dos artificios e adornos
que distorcem a visão ? Sem a distração gerada pelos
afazeres, ou a louca ilusão da busca pelo prazer ? Estariamos
diante do verdadeiro desespero da futilidade primordial.
A diversão e a atividade tentam apaziguar-nos o espirito,
dar um senso de sentido, livrando-nos de toda forma de aflição e
amargura. No entanto, são apenas condições que pervertem e
dissimulam o verdadeiro significado de tudo.
São adereços com os quais enfeitamos vida, uma forma de maquiagem que disfarça as imperfeições, pois, se notadas, inviabilizariam, quem sabe, a propria raça de manter-se
como tal.
As mascaras, introduzidas pela natureza, tornam a vida
suportavel, minimamente possivel para ser vivida.
A visão real da coisa só é possivel para poucos.
A verdade aniquila o ingenuo descautelado.
Ocupamo-nos para mitigar o tedio de que nada importa.
Lançamo-nos em empreendimentos que se afiguram importantes,
mas, certamente, não vão alem dessa aparencia, pois nada
conseguirá impedir-nos de virar comida de insetos.
Dessa forma, qual a importancia das nossas conquistas, ou
mesmo dos nossos desenganos ? Das vitorias ou decepções ?
Tudo acaba da mesma forma, como se ninguem
tivesse passado por aí?
Ou, voce acha que o homem evoluiu, ao longo de sua jornada,
no que diz respeito ao egocentrismo, a soberba, a ganancia, a
competição, o temor, e a preocupação diante tantos desafios e perigos ? Evoluimos, no universo da tecnologia, em verdade, como forma de contrapeso pela má-sorte da nossa condição.
Não é descrença, ou persuasão para suicidio em massa.
São apenas fatos que refletem a realidade dos fatos.
Talvez esteja a vida baseada nessa contextura. Vivê-la como se
realmente houvesse importancia, entrando nessa loucura, fazendo de conta que tudo conta e que fazemos diferença.
Lembra ainda do tempo em que acreditava em papai noel ?
Não foi bom ? E lastimamos demais quando um dia descobrimos
que tudo não passava de um conto de fadas.
São as ilusões que nos mantem de pé, não fossem elas talvez
morreriamos de melancolia ou pendurados numa corda.
Não queira, pois, descobrir a verdade. A caixa de Pandora
esconde fantasmas medonhos, uma vez libertos, terá de haver-se
com eles. A ilusão do papai noel, apesar do engano, é bem
menos angustiante que a verdade.
Mas, a bem dessa verdade, isso tambem não fará qualquer diferença.
Sabendo ou não o que há por detras do veu, no fim,
nada fará diferença ...
terça-feira, 8 de outubro de 2013
O DIA FOI CURTO, NÃO FOI ?
O dia foi curto, não foi ?
Havia ainda coisas para serem feitas... tantas !
O quintal ficou para ser varrido,
as margaridas para serem regadas,
e faltou tambem tempo para ouvir a cantoria dos passarinhos.
Pela manhã o dia prometia ser longo,
e parecia haver muito tempo à disposição.
Mas, agora que o dia finda, lentamente,
não sem um leve toque de nostalgia,
a gente questiona, descrente e até cismado,
para onde foi, a final, a promessa de um tempo sem fim.
O dia foi curto,
bem mais que a abrangencia das nossas propostas.
Correria, impasses, contratempos,
e foi assim que nos perdemos por caminhos alheios à nossa ordem.
O tempo foi escoando, fugindo traiçoeiramente, sem nos darmos conta, enquanto buscava-se de volta a rota perdida,
nem sempre, com facilidade, encontrada novamente.
O dia terminou,
mas fica a percepção que não podia ter terminado assim.
Uma tristeza inesperada se faz então presente,
saudade talvez da canção que não foi cantada,
ou da alegria que foi deixada para depois,
celebrada quando enfim houvesse tempo, num outro tempo.
E um vazio estranho foi preenchendo com nada
esse momento sombrio de desalento, com sabor de amargura.
O dia que finda,
traz sempre essa melancolia de pagina virada,
mesmo que o conteudo não tenha sido ainda interpretado.
A coisa não foi degustada,
tampouco o passo experimentou a extensão do percurso.
A mesa já foi desfeita. O palco esvaziou-se.
As luzes apagaram, e a plateia dispersou.
O silencio toma então a forma de uma sinistra inquietação.
Depois o sono de um acordar improvavel,
talvez, quem sabe, nem ao menos desejado.
O dia foi curto, e como foi !
Teria sido em função da ligeireza do tempo,
ou engano da gente supondo que o tempo jamais findaria ?
E esse engano fez-nos perder tempo,
esse tempo que agora falta
quando o dia, sem pena, termina.
E as coisas que ficaram para tras ?
E os sonhos, quantos... não realizados ?
Tantas coisas... tantas !
mas não há mais tempo disponivel,
a não ser esse tempo que olha para tras,
anunciando o fim do dia,
e o fim de tudo que nem sequer teve inicio...
segunda-feira, 23 de setembro de 2013
ACEITAR OS TROPEÇOS PARA APRENDER COM ELES
Para curar, é necessario, às vezes, primeiro sangrar.
A distancia, geralmente, mais aproxima que distancia.
Quem submeter-se ao caos, superando-o, terá acesso ao proximo lance, seguindo em frente, convicto que é assim que a vida é.
Sem magoa, nem protestos, apesar das feridas ainda sangrantes,
da dor do tropeço, e toda ordem de dificuldade.
A vida não é um movimento linear. É um caminho feito de quedas e superações, onde as quedas, tantas vezes, são o empurrão para
tentar mais uma vez.
A desistencia, porem, é sempre uma possibilidade. Pode haver
uma desproporção entre aplicação e beneficios. Entre esforço e recompensa. Frente a isso, a insatisfação invalida qualquer impulso para manter-se em marcha.
É o momento da opção, e uma escolha critica terá de ser feita.
As mudanças impostas pela vida, nem sempre são faceis de honrar. Tentamos atalhos, esquivando-nos atraves dos mais variados artificios possiveis, na tentativa de não nos submetermos aos propositos da vida, alheios à nossa vontade.
Mas, não há jogo de cintura que nos salve. O problema está
colocado, à espera de uma resposta.
Muitas vezes, um comprimido pode ser a opção mais pratica e
imediata, mas a enfermidade nunca vem de fora. As defesas
falharam, o mundo interno rompeu seu sistema de proteção.
O sofrimento aparece quando não formos mais capazes de dar
conta da gente mesmo.
Então um momento de reflexão se faz necessario. Uma pausa
para questionamentos.
A supressão dos sintomas, a nivel fisico, é a principal causa
de cada vez mais doenças; a nivel de vida, escapar pela tangente
das adversidades, gera apenas mais embaraços e inibições.
Apesar dos avanços da medicina industrial, cujo enfoque está
na enfermidade e não na saude,
há cada vez mais doenças, mais gente mutilada, perdida e
desesperançada.
A pessoa aprende a confiar nos artificios quimicos, nas
intervenções meramente sintomaticas, onde seu bem estar foi
confiado a terceiros. Torna-se paciente, e pacientemente espera
pelo milagre das drogas. Milagres que dificilmente serão
confirmados.
Quem aprende a cuidar-se, a medicina lhe será de pouca
valia.
A doença, como os impasses na vida, são oportunidades para
a pessoa aprender a cuidar-se, ser responsavel por si mesmo,
valorizar-se, ter consciencia.
Aprender a ser humano, compreender os misterios da
vida, aceitar os tropeços, e aprender com eles.
Não há nada de errado nas quedas, desde que não sirvam como
pressuposto para não mais nos erguermos,
transformarmos em gente ranzinza, qual criança mimada, sempre
à espera de ser carregada num colo salvador.
quarta-feira, 18 de setembro de 2013
O RUIDO ESTRIDENTE DA SIRENE
A sirene estridente pede passagem por entre
o transito lento e confuso, anunciando pressa,
pressa carregada de agitação e medo.
Todos dão passagem, abrindo alas, expremendo o fluxo,
atrapalhando o transito.
O paciente socorrido, teve ele tambem, vida a fora,
a mesma urgencia, com cuidados pessoais,
tal qual está tendo a ambulancia ?
Quem não toma conta de si, não poucas vezes, será a UTI movel
o ultimo recurso e esperança. Terá estão que haver-se com
ruidos estranhos, manobras duras, instrumentos, correria, alvoroço.
A vida dá-nos sempre mais uma chance, apesar da lição de casa
não ter sido executada. O professor não parece assim tão severo.
No entanto, esteja alerta. O tempo perdido, nem sempre
torna-se possivel ser recuperado. O remendo se mostrará sempre
como um ponto vulneravel. Algo se perdeu. E a originalidade
não será reparada.
Vulneravel tem a ver com fragilização, instabilidade, algo não
confiavel, precariedade.
Seria o ruido estridente da sirene apenas para abrir caminho,
ou, quem sabe, para despertar a pessoa do sono hipnotico
de uma vida de faz de conta, vida embotada,
obtusa e sem sentido algum ?
Quando não há mais o que esperar, surge então a esperança,
ultimo baluarte para quem andou por aqui, supondo que
haveria sempre tempo disponivel, depois, para dar conta
das coisas da vida.
O eterno esperançoso é aquele que não dispõe-se à ação, não
veste as botinas, fazendo o quem tem de ser feito,
a cada momento de cada dia.
Está sempre esperando; e é por isso, nesse momento confuso, espera novamente ... que a ambulancia o salve.
Transformou-se em sobrevivente. Terceirizou seu bem maior, e é
por isso que sua vida depende, não mais daquilo que
possa fazer, mas pelo que os aparelhos, respiradores, agulhas,
e quanta parafernalha mais, possam fazer por ele.
Está nas mãos da sorte ... e seja o que Deus quiser !
Fiquei refletindo, enquanto a ambulancia passava, fazendo
alarde, abrindo caminho por entre o transito caotico, nessa
linda manhã de sol, cheirando à primavera.
Enquanto isso alguem respirando atraves de uma
mascara fria, amparado por todos os lados, com olhar
amedrontado, confuso, perdido em pensamentos de morte.
O ruido da sirene não me importunou. Tambem dei passagem,
abrindo alas, assim como os demais, vendo a ambulancia passar.
Fiquei então refletindo sobre os misterios da vida,
e o quanto é confortavel estar no transito,
mesmo confuso e anarquico, mas respirando o ar da manhã,
com cheirinho de um novo tempo.
Desejei-lhe boa sorte e recuperação imediata.
E, aos poucos, o ruido da sirene foi amainando à distancia, o trafego se recompondo, e tudo voltando, outra vez, igual
ao que era antes.
É sempre assim. Enquanto uns morrem, outros seguem no
transito - impaciente, confuso e lento. Enquanto uns desistem,
outros permanecem à postos, apreciando o fluxo das coisas,
considerando que persistir até vale a pena.
Por fim, a vida segue, impassivel, como se nada tivesse acontecido.
A roda continua seu giro, indiferente, inexoravel, seja na morte,
ou mesmo para quem ainda continua vivo, querendo viver.
sábado, 7 de setembro de 2013
É ISSO QUE A VIDA É ?
Indignado, esbravejou, em bom tom, que a vida é uma bosta,
um projeto sem proposito, sem sentido algum, que não seja apenas sofrer, aguentar, com gosto de amargura.
Continuou o discurso, expondo uma lista infindavel de quesitos
onde tentou justificar seu caloroso argumento.
Fiquei atento enquanto ouvia, e compreendi seu pressuposto,
sua revolta, sua dor. Mas, ao mesmo tempo, compreendi tambem
que é neste chão que temos que pisar,
sendo aqui nosso domicilio,
independente de onde se venha, quais os objetivos
ou para onde se queira ir.
E, já que é por aqui que temos de andar,
porque então não proteger-se, ao inves dos protestos azedos,
( que serão de pouca ou nenhuma validade ),
vestindo, quem sabe, uma galocha resistente,
ou uma bota de cano bem longo ?
O resguardo é necessario. Não há duvida.
Emporcalhar-se sempre é possivel,
seja o caminho feito de bosta, ou não.
Mas, seja lá como for,
é nesse mundo que temos que nos mover,
não importando a substancia de que seja feito,
nem as circunstancias do percurso.
Pode ver despropositos por todos os lados, ou outra coisa qualquer.
Pode importar-se com as provações, ou adversidades de toda ordem. Mas o caminho é esse.
É assim que as coisas são.
E, se porventura, buscar por atalhos - não se iluda - esses, certamente, não serão de natureza diferente.
Estamos daqui;
e somos feitos da mesma substancia
que serve de apoio para que possamos seguir em frente.
Dessa maneira, a escolha é pessoal
sobre o tipo de chão que iremos nos mover.
Seguiremos por esse mundo,
que poderá ser um mundo imperfeito,
cheio de inadequação, desacertos
ou, seja lá o que decidirmos que seja.
O bom disso,
é que somos nós quem sempre irá decidir
de como será o solo sobre o qual se irá pisar.
Pode ser que as botinas estejam imundas,
ou, então, lambuzado de alto abaixo,
lamentando-se da imperfeição das coisas.
Ou, pode então, andar com passo firme, seguro,
determinado, imperturbavel,
não importando-se com as condições do destino.
Nós somos daqui,
e estamos aqui, unicamente, para nos descobrirmos
no grande tabuleiro da vida.
Seja em meio às dificuldades, sofrimento, e tristeza,
mesmo assim, teremos de seguir adiante.
Podemos ver nisso perspectivas de florescimento,
possibilidades de evolução,
consciencia dos misterios da vida,
ou um mundo de bosta,
um mundo sem graça,
uma vida sem sentido.
O que se vê, não é aquilo que é,
mas apenas uma maneira de olhar.
E, quando não nos tomarmos mais tão à serio,
tão exigentes e reclamões,
possamos, quem sabe, dar boas risadas
das exigencias da gente !
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